Será que o adensamento urbano potencializa as epidemias?

Claudio Bernardes*

Com o advento do surto epidêmico provocado pelo coronavírus, muitos parecem entender que, em locais mais densamente populados, existiria maior risco na evolução do processo de contaminação. A conexão entre densidade urbana e epidemias parece ser uma conclusão evidente, pois a potencial probabilidade de as pessoas terem contato mais frequente aparentemente ancora essa tese.

Contudo, essa teoria na prática parece não ser totalmente válida, uma vez que cidades extremamente densas, como Singapura, Seoul e Xangai, tiveram melhor performance no combate ao coronavírus do que outras muito menos adensadas.

Baseados em evidências obtidas em cidades chinesas, os pesquisadores Wanli Fang, economista urbana do Banco Mundial, e Sameh Wahba, diretor global do departamento de administração de riscos e resiliência urbana do Banco Mundial, publicaram estudo que avalia os efeitos da densidade sobre a evolução epidemiológica.

Para descobrir se a densidade populacional é ou não um fator-chave na disseminação da covid-19, os pesquisadores coletaram dados em 284 cidades chinesas, considerando dois indicadores principais: o número de casos confirmados de coronavírus por 10.000 pessoas, e a densidade populacional na área urbana.

As cidades chinesas avaliadas estão entre as que passaram por todo o ciclo, e tiveram o surto estabilizado. Foi avaliado também o PIB per capita em cada localidade, para verificar a existência de relação entre a riqueza da cidade e a resposta ao surto epidêmico.

Os pesquisadores afirmam que os dados levantados não evidenciam ser a densidade um fator determinante no risco de transmissão do coronavírus. Cidades com altíssima densidade populacional, como Xangai, Pequim, Shenzhen, Tianjin e Zhuhai, tiveram muito menos casos confirmados por 10.000 pessoas. Observaram também que o grupo de cidades densas é o mais rico, tornando-as mais capazes de mobilizar recursos para lidar com a epidemia.

Ao contrário, as cidades com as maiores taxas de infecção por coronavírus foram aquelas com densidades populacionais relativamente baixas, na faixa de 5.000 a 10.000 pessoas por quilômetro quadrado – a cidade de São Paulo tem uma densidade aproximada de 8.000 habitantes por quilômetro quadrado.

Densidades mais elevadas podem ser um aspecto positivo no combate a epidemias. Devido às economias de escala, as cidades geralmente precisam atingir um certo limite de densidade populacional para poder oferecer instalações e serviços de melhor qualidade e eficiência aos seus residentes. Por exemplo, em áreas urbanas densas, onde a cobertura de internet de alta velocidade e serviços de entrega porta a porta são mais eficientes, é muito mais fácil para os residentes manter o isolamento social.

À medida que a urbanização continua, não teremos alternativa a não ser vivermos em um mundo em que as pessoas estão ainda mais próximas umas das outras do que antes, seja espacial ou economicamente, e os riscos potenciais relacionados a emergências de saúde pública precisam ser gerenciados adequadamente.

Sem dúvida, são necessárias mais pesquisas para tirar conclusões sobre impactos positivos da densidade, e os estudos devem considerar de forma diferente o adensamento em cidades com grandes fluxos de turistas e visitantes. Contudo, concluem os pesquisadores, as evidências permitem afirmar não ser a densidade uma inimiga na luta contra o coronavírus. Informe Publicitário.

*Presidente do Conselho Consultivo do Secovi-SP

22 de maio de 2020

 

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