Institucional

Confira artigo do VP Hamilton Leite publicado no Estadão de 4/2/17


Vanderley e Diana discorre sobre a fauna urbana e sua importância para as cidades e seus habitantes
Hamilton Leite

Da minha janela, tenho uma ampla vista para um vale no bairro de Perdizes, cumeado pelas ruas Apiacás e Caraíbas, no eixo entre as ruas Vanderley e Diana. Já há alguns anos, tenho avistado, de vez em quando, um casal de carcarás voando ou pousado sobre os barriletes dos edifícios.

O carcará, uma das aves de rapina mais comuns do Brasil, vive em campos abertos, bordas de matas, no litoral, e é também frequentemente encontrado nas cidades. Como outros bichos da fauna urbana, alimenta-se de quase tudo que encontra, desde carcaças em decomposição - passando por pequenos seres vivos como lagartixas, ratos, filhotes de outras aves e invertebrados - até o lixo doméstico.

Raramente percebemos a vida silvestre que nos cerca no dia a dia agitado nas metrópoles, atualmente consideradas verdadeiros ecossistemas, como qualquer outro existente em ambientes naturais. Mas é só prestarmos atenção, que começamos a notá-los.

Sobre o aparelho de ar condicionado da sala onde trabalho, dois barulhentos filhotes de sabiás-laranjeira (ave símbolo do Brasil) estão sendo criados por seus pais. A pitangueira que temos no terraço de casa alimenta um casal de sanhaços, sempre atento ao nosso intolerante vira-lata.

Quem nunca viu capivaras pastando nas margens do rio Pinheiros? Em plena São Paulo! Esses animais tiram proveito da abundância de alimentos, nichos ecológicos, abrigo em locais de difícil acesso e maior tolerância por parte dos seres humanos. Alguns, como o carcará, ainda ajudam a controlar a quantidade de ratos, baratas, carrapatos, cupins, mosquitos e moscas.

Esse rico ecossistema está em risco: 30 das cerca de 700 espécies catalogadas na capital paulista estão ameaçadas de extinção, como a cigarra, o curió, o gato do mato, três espécies de gavião e uma, de ararinha.

Como cidadãos, podemos prover alimento aos animais silvestres, plantando árvores frutíferas nos quintais de nossas casas ou nos terraços de nossos apartamentos. E, de preferência, essa vegetação deve ser nativa, pois como está adaptada ao ciclo de chuvas e ao clima regional, requer um volume menor de água para irrigação.

Incorporadores podem maximizar a área destinada a jardins em seus empreendimentos, paisagistas podem especificá-las em seus projetos e os síndicos podem substituir as plantas exóticas existentes nos condomínios. E os governos devem ampliar as áreas verdes nas cidades, além de promover a arborização de ruas e parques. Para sabermos quais árvores devemos escolher e como elas devem ser plantadas, a prefeitura de São Paulo publicou o Manual Técnico de Arborização Urbana, que está disponível em bit.ly/arvoresurbanas. Existe também nas livrarias, o excelente livro “Aves brasileiras e plantas que as atraem”, de Johan e Christian Dalgas Frisch.

A hipótese da “biofilia” (do grego: bios = vida e philia = amor) propõe que todos nós temos um componente genético que nos liga emocionalmente à natureza, pois foi neste ambiente onde ocorreu a evolução dos seres humanos. Evidências comprovam esta teoria, a qual demonstra que existem inúmeros benefícios para aqueles que vivem próximos de animais e plantas.

Não devemos ter a pretensão de transformar nossas cidades em florestas, mas podemos construir um ambiente urbano que satisfaça parte desta nossa necessidade ingênita e ajude a restaurar o amor pela natureza que temos gravado em nossos corações.

Fiquei muito feliz uns dias atrás, quando avistei um terceiro carcará voando com o Vanderley e a Diana. Só não sei se o chamo de João Ramalho ou de Bartira!

(*) Hamilton Leite, vice-presidente de Sustentabilidade do Secovi-SP e pró-reitor da Universidade Secovi .

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