Compra e Venda

O que os jovens trazem de desafio para o mercado imobiliário?


Em artigo, Luiz Fernando Gambi, coordenador da Convenção Secovi, faz provocações acerca de uma nova e promissora demanda por imóveis
               *Luiz Fernando Gambi

Uma olhada no comportamento da demanda habitacional nos faz perceber um mercado promissor.

Recentemente, a pedido do Secovi-SP, a FGV (Fundação Getúlio Vargas) esquadrinhou cenários futuros para o setor imobiliário, levando em consideração variáveis demográficas e socioeconômicas.  

A evolução populacional entrou na análise. No período compreendido entre 2015 e 2025, o crescimento demográfico deverá passar de 1,1% ao ano para 0,7% ao ano. Há uma tendência de queda do número de pessoas por família, resultado da redução da taxa de fecundidade e da formação de famílias unipessoais ou casais sem filhos. 

Consequência: a taxa de formação das famílias (2,21% a.a.) tem sido mais que o dobro da taxa populacional (1,03% a.a.). Se há novas famílias, há demanda para habitação. Redução do número de nascimentos não implica redução da necessidade de domicílios. 

Ocorre que esse novo potencial cliente do mercado imobiliário não é o mesmo de antes: tem hábitos e filosofia de vida diferentes, o que impacta diretamente na maneira como escolherá seu imóvel ideal. 

A pesquisa da FGV não abrangeu o perfil da nova demanda, mas nosso olhar empírico e nossa sensibilidade nos permitem fazer algumas constatações. 

Focando especificamente no público mais jovem, observamos uma geração moldada pela tecnologia. 

Compras, notícias, e-mail, filmes, séries, programas de TV, álbum de fotos, blogs, podcast, livros e, até mesmo, relacionamentos... Tudo isso, hoje, pode estar congregado em um deslizar de dedos sobre uma tela negra que cabe na palma da mão. 

A autonomia que a tecnologia lhes confere no ambiente virtual, muitas vezes, se estende às suas expectativas no mundo real. Se têm voz nas redes sociais, querem de igual modo ter voz em seus postos de trabalho. Se não encontram ambiente propício para que sejam escutados, pedem demissão na maior sem-cerimônia e se arriscam em outros empregos. 

Se a tecnologia é imediatista, por tabela, seu usuário tende a ser imediatista. Se a tecnologia muda em ritmo quase que impossível de ser acompanhado, quem a utiliza tem potencial de ter seus hábitos influenciados pela mesma impermanência. 

Não à toa, são jovens conhecidos como geração Z – de zapear, palavra que remete a intermitência, coisas passageiras e efêmeras. 

O mercado de imóveis não pode ficar alheio a essa realidade. 

Indo contra o senso comum de cultura patrimonialista, esse jovem não quer ter um imóvel, mas sim usá-lo. O mesmo ocorre com relação ao carro: preferem usar serviços como 99 Táxis, Cabify, Uber, ou, até mesmo, de compartilhamento de automóvel, em vez de comprar um veículo. 

Incorporadoras, construtoras, imobiliárias e administradoras de condomínios precisam captar esse novo espírito do tempo e transformá-lo em produtos e serviços que dialoguem com esses jovens. 

Trata-se de uma inflexão cultural. E não adianta resistir a ela. 

O produto ideal para esse público, talvez, seja um apartamento pequeno, de um dormitório, localizado perto de regiões onde mais se concentram empregos e eixos de transporte. Se seu imóvel é pequeno, talvez esse cliente precise otimizar seu espaço. 

Já que sua cabeça é aberta à ideia de compartilhar, por que não pensar em áreas comuns do condomínio com novas funcionalidades? 

Uma cozinha coletiva e salas de jantar compartilhadas, onde os moradores possam conviver e, consequentemente, demandando menos espaços nas unidades. 

Lavanderia com lava-e-seca, onde também se passa roupa. 

Um local com várias ferramentas, como furadeira elétrica, de onde o morador possa pegar emprestados equipamentos cujo pouco uso não justifique sua compra. 

Tudo isso faz com que o usuário do apartamento não precise ocupar seu pouco espaço com um monte de coisas que, mais tarde, lhe custará trabalho para se desfazer. 

Isso mesmo: se desfazer!

Logo, ele vai embora. Vai mudar de emprego e vai querer estar perto do novo trabalho. Vai mudar de cidade. Vai mudar de país. Lidar com máquina de lavar, mesa de jantar, prataria, estante e tudo mais pode ser um estorvo indesejado para ele. 

Diante disso, nós, agentes do mercado imobiliário, precisamos fazer uma profunda reflexão: estamos produzindo empreendimentos de acordo com essa nova filosofia de vida? Os corretores de imóveis estão suficientemente antenados com esse novo cliente e alertando investidores do mercado de locação acerca desse potencial todo? 

Faz sentido, ainda, termos contratos de locação inspirados em outros tempos? As garantias locatícias tradicionais estão adequadas? As administradoras de condomínios estão orientando suas carteiras para uma readequação das áreas comuns?

Algumas iniciativas já começam a ser vistas no ambiente corporativo. Coworking, por exemplo, segue a filosofia do compartilhamento. Consequência direta: as empresas também não têm mais apego a metro quadrado de laje corporativa. Some-se a isso o fato de que muitos postos de trabalho não estão mais alocados fisicamente dentro das empresas, mas sim a distância, com os colaboradores exercendo suas funções de casa – mais uma facilidade proporcionada pela tecnologia.

O dia de amanhã

Se, por um lado, a fugacidade é o combustível da vida desse jovem, por outro, cabe-lhe também refletir sobre o dia de amanhã. A finitude da vida chega para todos. No futuro, a propriedade de um imóvel pode ser o porto seguro dessa geração. 

Aquilo que se deseja hoje (flexibilidade, praticidade, apenas uso de algo sem sua posse, transitoriedade etc.) pode não ser a necessidade de amanhã (estabilidade, um lar para chamar de seu sem precisar pagar aluguel, propriedade etc.). 

O mercado imobiliário é responsável por prover soluções de habitação em ambos os contextos. Temos de oferecer imóveis a esse jovem de hoje, mas, simultaneamente, pensar sua vida na fase adulta. 

Independentemente da etapa da vida em que esteja, esse jovem precisará do mercado. Serão soluções distintas, abordagens diferentes, mas, inescapavelmente, virão dos incorporadores, dos corretores, dos construtores, da administração condominial. 

Fechar os olhos a essa realidade é um descuido que pode custar a sobrevivência de muitos negócios. 

Não são problemas. 

São oportunidades. 

Incorporador, construtor, arquiteto, projetista, corretor, administrador de condomínio, gestor de fundo de investimento, investidor terão a oportunidade de entender uma fração dessa nova realidade na Convenção Secovi deste ano, cujo mote, sugestivamente, é Virando a Página

Informe-se em www.convencaosecovi.com.br e participe. 

*Luíz Fernando Gambi é coordenador geral da Convenção Secovi e diretor do Secovi-SP.

Autor: Assessoria de Comunicação do Secovi-SP

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