O sonho da casa própria está, temporariamente, dando lugar à flexibilidade do aluguel para muitos brasileiros. Dados recentes do IBGE revelam que o número de imóveis alugados no país cresceu mais de 50% em menos de uma década, enquanto a proporção de moradias próprias quitadas diminuiu. Para entender os fatores por trás dessa transformação urbana e econômica, a rádio CBN Campinas entrevistou, no dia 27 de abril, Daniel Aranovich, diretor de Intermediação Imobiliária e Marketing da regional Secovi-SP em Campinas. Segundo o especialista, o cenário atual é resultado de uma combinação de fatores financeiros e de uma nova mentalidade geracional.

O principal obstáculo para a aquisição de imóveis atualmente é o custo do crédito. Aranovich destaca que a taxa Selic em patamares elevados restringe severamente o acesso ao financiamento imobiliário. “A cada 1% que aumenta a taxa de financiamento, eu retiro da compra 170 mil famílias. Em 5 anos, são 800 mil famílias fora do processo de compra. E não porque não quer, porque a parcela não cabe na renda”, explica. Ele ressalta ainda que a taxa básica de juros alta encarece também o processo construtivo para as construtoras, gerando um efeito em cadeia que afasta o comprador final e o empurra para a locação.

Além das barreiras econômicas, há uma forte mudança comportamental impulsionada pela Geração Z, composta por jovens de 18 a 28 anos. Essa parcela da população cresceu habituada a serviços de assinatura e valoriza a mobilidade acima da posse. “É uma nova geração que nasceu na internet e nasceu acostumada a muito mais pagar para usar. Ele nasceu já com Spotify, Netflix, Uber… não que nem a gente, que precisava comprar as coisas”, afirma Aranovich. Segundo ele, para esse público, o aluguel deixou de ser visto como “jogar dinheiro fora”. “O pagar para usar, na cabeça dessa Geração Z, é sinônimo de mobilidade, de independência, de ficar um tempo num lugar e mudar para outro”, destaca.

Esse desejo por mobilidade, aliado à piora no trânsito das grandes cidades, faz com que muitas pessoas abram mão de imóveis maiores e mais distantes para alugar espaços menores, porém próximos ao trabalho ou à escola. Há também um público de classe média que opta estrategicamente pelo aluguel. O especialista aponta que muitas pessoas preferem deixar o capital rendendo a taxas atrativas em aplicações financeiras no banco, enquanto pagam um aluguel proporcionalmente menor. “A lógica é essa: ele deixa o dinheiro aplicado com o rendimento, ele aluga e ainda sobra algum dinheiro no bolso dele”, pontua.

Como consequência dessa alta procura, somada à menor oferta de imóveis disponíveis, os preços dos aluguéis dispararam nos últimos anos, subindo o dobro da inflação. Apesar desse movimento, Aranovich garante que o desejo da casa própria não desapareceu; ele está apenas represado pela economia. Ele avalia que futuros cortes na taxa de juros pelo Banco Central serão o gatilho para destravar o mercado de vendas. “A gente tem a maior intenção de compra dos últimos anos: 50% dos entrevistados querem comprar. Só não compraram porque os juros não deixaram. Está todo mundo sendo segurado pela Selic. Quando a Selic cai, eu vou abrir essa porta para todo mundo que quer comprar, realmente conseguir adquirir esse imóvel próprio”, conclui.