Perda populacional dessa regiões gera impactos sociais e econômicos negativos. Reversão do cenário exige políticas públicas articuladas e de longo prazo
As áreas centrais das cidades brasileiras caracterizaram-se sempre como locais onde se concentraram serviços, comércio e habitações. Desde a década de 1950, muitas destas áreas sofreram processos de degradação física e perda populacional. Além disso, muitas atividades que podem ser consideradas estratégicas para o funcionamento dessas centralidades acabaram se deslocando para outras partes das cidades. As razões para a ocorrência desse fenômeno normalmente são o resultado de uma combinação de fatores sociais, econômicos e urbanísticos, com fortes reflexos para a dinâmica da cidade como um todo.
Esse modelo de descentralização da cidade, aliado a um planejamento voltado para o deslocamento por automóveis, favoreceu o deslocamento das classes mais favorecidas para bairros mais afastados, o mesmo ocorrendo com atividades empresariais e comercias, que ao se deslocarem acabaram induzindo a criação de novas centralidades.
Como resultado desse esvaziamento, em muitos casos ocorreu o abandono e desestímulo à manutenção de edifícios, que perderam valor de maneira acelerada. Paralelamente, como as áreas centrais abrigam edifícios mais antigos, legislações equivocadas regulando a preservação do patrimônio histórico agravaram o problema, induzindo o abandono não só dos bens que se pretendia preservar, mas também daqueles em seu entorno.
O comprometimento da viabilidade econômica de comércio e serviços, aliado ao esvaziamento da população resultou também na perda da vitalidade e subutilização da infraestrutura instalada, causando desperdício do investimento público.
Como é natural, com a diminuição do número de moradores existe uma queda na ocupação dos espaços públicos, em especial fora do horário de trabalho, além da indução a uma menor diversidade de usos e redução das atividades comerciais. Menos atividade nas ruas significa mais insegurança, e isso impulsiona um círculo vicioso de mais abandono e insegurança.
O fato de as classes de maior renda deslocarem-se para regiões fora da área central, aliado à resultante diminuição do valor dos imóveis, induz à ocupação dessas áreas por pessoas de menor renda, inclusive moradores de rua, e atividades informais, o que alavanca esse círculo vicioso.
Outra questão importante é que os edifícios existentes, normalmente mais antigos, necessitam de muito investimento para se adaptar às necessidades atuais, o que em muitos casos inviabiliza a adaptação. Sem um perfeito entendimento desse fenômeno por parte do governo municipal, flexibilizando parâmetros para ocupação de edifícios existentes, dificilmente se conseguirá revitalizar essas áreas centrais.
Do ponto de vista ambiental e da mobilidade, o esvaziamento das áreas centrais é um grande retrocesso. Normalmente essas áreas são as mais bem dotadas de infraestrutura urbana, um investimento publico que fica subutilizando, enquanto o governo municipal tem que investir nas áreas que se expandiram como resultado do esvaziamento do centro.
Diante desse quadro, a reversão do esvaziamento das áreas centrais exige políticas públicas articuladas e de longo prazo. Reabilitar edifícios para uso habitacional, valorizar o patrimônio cultural, incentivar a produção de novos edifícios e a diversidade de usos, além da promoção da segurança urbana, são estratégias fundamentais. Reconstruir as áreas centrais como locais para convivência e experiências positivas da vida cotidiana significa mais que somente intervenções pontuais. É necessário reconhecer o papel estratégico dessas ações para que tenhamos cidades mais justas e eficientes dos pontos de vista urbano e econômico.
*Claudio Bernardes é colunista da Folha Online. Artigo publicado em 24/04/2026.