Impactos ambientais são inevitáveis e inerentes à produção imobiliária, que cumpre essencial papel econômico e social, atendendo a demanda da sociedade por moradias, escritórios, hotéis e centros comerciais. Porém, estes impactos – como os materiais utilizados na construção e o consumo de água e energia elétrica durante a utilização do empreendimento – podem ter maior ou menor grau, de acordo com o modelo de produção e operação empregados.
Ações sustentáveis podem ser adotadas em três momentos pelo setor: na urbanização de glebas brutas, na construção de empreendimentos e na operação do ambiente construído.
Em relação às edificações existentes, guias com ações que podem ser tomadas para torná-las mais sustentáveis foram publicados pelo Secovi-SP e a implantação de programas de conscientização e educação ambiental dos usuários dos imóveis é a mais eficiente. Uma pesquisa demonstrou que as economias de água e energia foram muito maiores em um imóvel convencional, ocupado por uma família sustentável, do que as ocorridas num imóvel sustentável similar, habitado por uma família “convencional”.
Na fase de parcelamento do solo, as empresas loteadoras podem nortear seus projetos, para torná-los mais sustentáveis, por exemplo, adotando como referência os “Indicadores para o Desenvolvimento Urbano Sustentável”, disponível para download gratuito em www.secovi.com.br.
A construção sustentável é o modelo de produção que controla os impactos sobre o ambiente externo e cria edificações com ambiente interno confortável e saudável, minimizando os impactos negativos inerentes à produção e utilização do ambiente construído. Ela é o meio pelo qual a indústria da construção pode responder ao desafio do desenvolvimento sustentado.
Para orientar seus associados nessa direção, o Secovi-SP e o CBCS publicaram o “Caderno de Condutas de Sustentabilidade no Setor Imobiliário Residencial”, também acessível pelo site do Sindicato. Há, porém, um desequilíbrio econômico na equação de custos e benefícios relacionados à construção sustentável.
Em outubro de 2013, no âmbito do programa de mestrado em Engenharia Civil da USP, finalizei aprofundada pesquisa sobre os custos e benefícios financeiros da construção sustentável (disponível em http://goo.gl/rT5V5v). Os custos adicionais, que variam entre 1,6% e 8,6% são exclusivamente suportados pelos incorporadores, enquanto os benefícios financeiros mais evidentes são obtidos pelos usuários.
Estes pagam menores contas de água, energia e manutenção das edificações, bem como desfrutam de ambientes que propiciam melhor saúde e produtividade. E os governos também são diretamente beneficiados, pois reduzem investimentos em infraestrutura de saneamento básico, energia, sistema viário e drenagem, segurança e saúde pública nas cidades sustentáveis.
A concessão por parte do poder público de maior coeficiente de aproveitamento dos terrenos às incorporadoras pode ser uma solução para compensar o encarecimento da construção sustentável, sem onerar o valor final dos imóveis pagos pelos consumidores.
Este mesmo incentivo poderia neutralizar os preços mais elevados de áreas para a implantação de empreendimentos destinados à habitação de interesse social em zonas mais valorizadas das cidades, aproximando essa população de regiões com maiores ofertas de emprego, lazer e educação de qualidade. Com isso, seria reduzido o número de viagens decorrentes do movimento pendular diário entre as periferias das cidades e seus centros, as emissões de gases de efeito estufa, a poluição e o trânsito, problemas que prejudicam a qualidade de vida e causam tantos transtornos aos habitantes das grandes metrópoles.
Koyaanisqatsi é o título de um documentário de 1982 que, apesar da idade, é inquietantemente contemporâneo. O filme cult é uma sequência de vídeos, acompanhados por uma trilha sonora, sem nenhum diálogo, que narra as relações entre humanos, natureza e tecnologia. Na língua da nação indígena norte-americana Hopi, esta palavra significa vida fora de equilíbrio; estado de existência que pede uma outra maneira de se viver.
Talvez a humanidade esteja no momento exato de reconhecer a necessidade de encontrar uma maneira de viver e de produzir que seja sustentável pelos séculos por vir. “Se nós tirarmos coisas preciosas da terra, convidaremos o desastre” – profecia Hopi.
*Hamilton de França Leite Júnior, diretor do Secovi-SP (Sindicato da Habitação) e da Casoi Desenvolvimento Imobiliário, administrador de empresas (FAAP) e mestre em engenharia civil e urbana (Poli/USP).