O Secovi-SP realizou no dia 8/12 o evento “Secovi com Você – Conexão RH”, reunindo especialistas, executivos e representantes do governo para debater os principais desafios do mercado de trabalho, com foco especial na humanização e no setor imobiliário. A programação contou com cinco painéis temáticos, uma mesa redonda e o lançamento do Portal da Empregabilidade Digital.

No primeiro painel “Saúde e Segurança do Trabalho – Se Preparando para a NR-1”, foram abordadas as mudanças na legislação relacionadas à Norma Regulamentadora 1, que exige das empresas atenção especial aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Tânia Fator, doutora e Mestre em Psicologia Social, explicou que as empresas precisam realizar diagnóstico dos colaboradores, montar planos de ação e acompanhar continuamente as medidas preventivas, utilizando ferramentas como pesquisas de clima e monitoramento de indicadores.

O painel seguinte, “Dificuldade de Contratação e Escassez de Mão de Obra Qualificada”, foi conduzido por Delma Moraes, gerente executiva de Pessoas e Tecnologia da Tarjab, que alertou: “A nossa população ativa nos canteiros de obra está envelhecendo e a gente não está conseguindo repor essa mão de obra”. Ela destacou que os jovens da Geração Z preferem trabalhos em aplicativos a carreiras estruturadas. Moraes defendeu a melhoria dos processos produtivos e questionou a nomenclatura dos cargos: “Quem quer ser servente? Essa nomenclatura, por si só, já é o possível ser motorista, autônomo. Isso é um ponto que nós temos que refletir”.

Ela também comparou o setor com o agronegócio: “O agro teve todo um trabalho de mídia, e o que ficou? O agro é técnico. E o que a gente, nós construtoras e incorporadoras, o que a gente é para o mercado? Essa melhora de imagem também vai fazer com que a gente fique mais atrativa”.

Gisele Marques, diretora de Gente e Gestão da Plano&Plano, trouxe outra perspectiva. “Eu acho que enquanto a gente ficar procurando mão de obra e disser que a mão de obra está escassa, acho que a gente está indo para o lugar errado. Na verdade, a gente precisa achar o significado, o propósito sobre o que é essa mão de obra”, afirmou.

Para ela, os jovens querem trabalhar com sentido: “O que eles querem é o que nós sempre quisemos e a gente nunca teve, mas que eles têm a possibilidade de falar. Eles querem trabalhar naquilo que eles querem com propósito. Eles não querem fazer algo operacional sem saber por que estão entregando”.

Marques defendeu que as empresas precisam ressignificar as carreiras: “Nós empresas, nós RH, a gente precisa ressignificar isso e trazer o senso de pertencimento, para daí, sim, a gente seja atrativa”. Ela também destacou a importância da inclusão de mulheres no mercado de trabalho: “A gente tem mulheres, muitas vezes, em situação de violência doméstica, que sofrem vários abusos e não conseguem acessar o mercado de trabalho. Elas estão presas a essa violência por uma questão de falta de autonomia financeira”.

Marques mencionou parcerias com ONGs como 10 Favelas: “Eu tenho uma demanda e existe uma outra demanda do outro lado. Então, eu preciso pegar essas demandas e transformar isso em uma oferta. A gente vai fazer duas coisas boas: atender a empresa e fazer inclusão social verdadeira”.

Amiris de Paula Sardeira, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, apresentou a plataforma Trampolim e enfatizou: “A gente precisa pensar não só no recorte, mas na jornada dessa pessoa. A gente precisa principalmente dessa habilidade de inter-relacional. O aprendizado de soft skills vai fazer com que esse trabalhador tenha flexibilidade para se adaptar ao mercado de trabalho”.

O painel “Pessoas, Cultura e Gerações: O Futuro do Trabalho sob a Ótica de Três Gerações” trouxe Kelma Camargo, diretora regional do Secovi-SP e administradora de condomínios há 40 anos, que compartilhou sua experiência sobre o diálogo entre gerações. “Esse conflito de gerações é o que faz a gente crescer. É o que faz a gente evoluir”, declarou.

Ela pontuou que, apesar da tecnologia, o contato humano é fundamental: “As pessoas hoje querem falar. Querem um abraço. Elas precisam disso”. Camargo abordou o imediatismo da juventude atual: “O imediatismo é a coisa que mais me preocupa. Hoje, o jovem vê o prato e ele vai comendo, ele quer absorver aquilo”. Sobre gestão de equipes, foi enfática: “Eu trato os meus funcionários como minhas filhas. Porque eu passo dois terços da minha vida com elas”. Roberta Bigucci, Gabriel Luna e Kelma Camargo, que discutiram programas de primeiro emprego e qualificação profissional para jovens em situação de vulnerabilidade, destacando o papel do RH na transformação social e na promoção de oportunidades reais de desenvolvimento.

O painel “Empregabilidade Além das Cotas” trouxe reflexões profundas sobre medidas afirmativas. Mônica Marcele, do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola), questionou: “Quando você pensa em cota, o que vem na cabeça? Vem fiscalização”. Ela explicou: “Quando a gente fala de cota, a gente fala de medidas afirmativas. Vale dar um passo para trás, para dar dois para frente”.

Marcele apresentou dados importantes: “81% dos jovens se sentem mais motivados quando participam de programas de capacitação e recebem feedback constante” e “72% dos jovens capacitados permanecem na empresa após o término do contrato de aprendizagem, quando há acompanhamento”. Ela também apresentou o programa BEM (Bolsa Estágio Ensino Médio), do governo de São Paulo: “O governo paga o valor da Bolsa Auxílio do Estagiário. Qual é o seu custo? Pagamento do auxílio transporte”.

Fábia Mistreta, da Fundação Dorina Nowill, compartilhou sua experiência pessoal: “Em 2017, eu fui diagnosticada com uma doença neurológica e da noite para o dia eu perdi a visão”. Ela relatou os desafios nos processos seletivos: “Quando eu ia para etapa presencial, em que eu aparecia com a minha bengala, eu sentia que o recrutador recuava”. E refletiu: “É muito difícil a gente lidar com o que é diferente”.

Margareth Oliveira, do Projeto Ampliar, participou do painel destacando a importância da capacitação e educação continuada, especialmente para profissionais que buscam recolocação no mercado. Ela enfatizou que as parcerias entre empresas e instituições de ensino são fundamentais para promover a empregabilidade e o desenvolvimento profissional de forma inclusiva.

Em “Tecnologia sobre o olhar humano” abordou o impacto da inteligência artificial nos processos de Recursos Humanos. Edwiges Parra, conselheira da RS Serviços e professora, provocou: “O problema não é a tecnologia, mas o que está entre essa relação, que é o corpo humano”. Ela questionou o uso acelerado das ferramentas: “Quantos usam o WhatsApp na velocidade 1,5 ou 2? Vocês estão sendo treinados a se tornarem cada vez mais impacientes, superficiais e pouco tolerantes”. Parra destacou que o maior problema atual é a falta de propósito: “Por que eu faço as coisas que eu tenho que fazer? Eu não sei para onde isso vai dar. E não tem a ver com problema social nem financeiro. É a mesma implicação que percorre todas as camadas e gerações”.

“Tecnologia e Inovação no RH”, Emerson Rosa, gerente executivo de Engenharia de Vendas da Totvs, apresentou tendências de IA aplicada ao RH. “Qual será o papel da IA? A certeza que temos é que ela vai ampliar a inteligência das pessoas”, afirmou. Ele alertou: “A IA não é uma onda, é uma tsunami”. Rosa trouxe exemplos práticos: “O médico entra na sala, pergunta se pode gravar a consulta com IA. Ele não olha mais para o computador, se dedica à pessoa. Quando termina, pergunta para a IA: faz para mim todo o resumo”.

O evento foi encerrado com o lançamento do Portal da Empregabilidade Digital, apresentado por Claudinei Pauda, diretor da Hedz. Ele citou dados alarmantes da CNN: o tempo médio de reposição de uma vaga no Brasil é de 42 dias, afetando o resultado do país em um trilhão de reais. “Por que é tão difícil encontrar profissionais? Ou eles não existem na cidade, ou eu não os encontro”, explicou Pauda. A solução proposta: “Se conseguirmos colocar todos os profissionais do Brasil num único ambiente digital, fica fácil”.