A administração de condomínios no Brasil atravessa um momento de transformação profunda, onde o bem-estar psicológico dos colaboradores deixou de ser uma pauta secundária para se tornar uma prioridade jurídica e operacional. No último dia 7 de maio, o Secovi-SP realizou a segunda edição do Condo Meeting, evento que reuniu especialistas para dissecar as atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR1) e os desafios da saúde mental no setor.
Com o auditório na sede da entidade operando em sua capacidade máxima, o encontro evidenciou que síndicos e administradoras estão em busca de respostas para um cenário alarmante: o crescimento exponencial de afastamentos por transtornos mentais e o endurecimento da fiscalização trabalhista que entra em vigor pleno em maio de 2026.
A abertura do evento foi conduzida por Sérgio Meira, diretor de Condomínios do Secovi-SP, que destacou a mudança de posicionamento do sindicato para acompanhar a modernização do mercado. Meira ressaltou que a gestão atual exige uma visão que vai muito além da manutenção predial.
“Um prazer coordenar mais um encontro com vocês. Casa cheia, trânsito pesado, né? Mostra que todo mundo ainda está atrás de conhecimento. E esse é o nosso objetivo do Secovi: trazer conhecimento e networking”, afirmou Sérgio Meira.
O diretor explicou a evolução do formato, anteriormente conhecido como Ciclo de Palestras: “Recebemos esse tema novo, pois acho que a gestão de hoje vai muito além da operação: envolve pessoas, pressão e responsabilidade. Por isso, falar de saúde mental e riscos psicossociais deixou de ser uma opção. Nosso objetivo é trazer clareza e caminhos práticos para o dia a dia de vocês”.
O primeiro bloco técnico trouxe dados contundentes apresentados por Rômulo Carlos Macedo, engenheiro de Segurança do Trabalho. Com seis anos de atuação no nicho condominial, Macedo descreveu seu trabalho como uma “catequese” necessária diante de estatísticas do INSS que apontam um colapso silencioso nas relações de trabalho.
“De 2023 para 2024, tivemos um aumento de 68% no número de afastamentos devido a problemas psicossociais. O topo da lista é a ansiedade. O Brasil se tornou o país mais ansioso do mundo”, alertou.
O engenheiro detalhou que transtornos ansiosos (CID F41), episódios depressivos (CID F32) e reações ao estresse grave (CID F43) já representam a segunda maior causa de afastamento laboral no país, perdendo apenas para problemas ortopédicos. Segundo ele, a mudança na NR1 é a resposta do governo a essa realidade. “Por que a NR-1 mudou? O foco da nossa palestra é responder como o gestor deve se adequar a essa nova exigência de avaliar riscos físicos, químicos e, agora, obrigatoriamente, os psicossociais”.
Apresentando um diagnóstico inédito, Macedo revelou que o assédio é o fator de risco predominante em 33,95% dos ambientes condominiais avaliados por sua equipe, seguido pela sobrecarga de trabalho (27,87%) e conflitos hierárquicos entre zeladores e novos síndicos (16,23%).
Entretanto, o engenheiro trouxe um ponto de otimismo para os gestores: “O baixo índice de insatisfação (0,79%) indica que o trabalhador, em geral, não deseja sair do condomínio, o que permite um trabalho de melhoria no ambiente”. Para ele, a adequação ao PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) deve ser feita de forma estratégica, utilizando métodos como o questionário JSS (Job Stress Scale). “É preciso evitar formulários extensos que geram desinteresse. O foco deve ser garantir o anonimato e um ambiente de confiança”, orientou.
A Dra. Tânia Fator, doutora e mestre em Psicologia Social, desmistificou o preconceito em torno do tema. Ela classificou a NR1 como a “norma-mãe” que deve guiar todas as outras, como a NR5 (CIPA), que agora inclui a prevenção ao assédio, e a NR17 (Ergonomia).
“É necessário combater a cultura ocidental de que saúde mental é ‘frescura’ ou ‘mimimi’. O condomínio não são apenas paredes ou infraestrutura, mas as pessoas que lá vivem e trabalham”, defendeu.
Tânia foi enfática ao diferenciar a cobrança profissional do abuso. Segundo ela, cobrar horários e tarefas é legítimo, mas o assédio se configura quando há desqualificação do indivíduo. “O assédio ocorre quando há juízo de valor. Dizer que o funcionário ‘é burro’ ou ‘não sabe fazer nada’ transpõe a barreira profissional e entra no campo do dano moral”, disse.
Um dos pontos mais sensíveis da palestra foi o alerta sobre a responsabilidade do condomínio em relação a funcionários terceirizados e prestadores de serviço. Tânia lembrou que a proteção à saúde é concomitante: se um morador assediar um técnico de internet dentro do prédio, o condomínio responde judicialmente.
Com a plena vigência da normativa prevista para 25 de maio de 2026, o descumprimento das regras de saúde mental pode resultar em pesadas sanções financeiras. “O descumprimento pode gerar multas de R$ 5.000,00 por notificação ou pessoa”, alertou.
Para encerrar o encontro, foram propostas soluções práticas que os síndicos podem implementar de imediato para mitigar riscos e melhorar o clima organizacional:
- Canais de Escuta: Criar espaços seguros para que o colaborador reporte conflitos sem medo de demissão.
- Mediação pelo Conselho: Utilizar os conselheiros como uma via neutra para equilibrar tensões entre o síndico e o corpo de funcionários.
- Apoio Psicológico: Buscar parcerias com clínicas-escola de universidades para oferecer suporte profissional acessível.
- Definição de Funções: Combater a “entropia organizacional” garantindo que cada funcionário saiba exatamente quais são suas atribuições, reduzindo a ansiedade da incerteza.