
No evento “Mulheres, Mães e as Cidades: Uma agenda coletiva por cidades mais seguras”, realizado dia 21 de maio, reuniu especialistas em segurança pública, urbanistas, jornalistas, gestoras públicas e especialistas em violência sexual infantil para enfrentar, com dados, coragem e propostas práticas, uma das mais graves crises humanitárias do Brasil: o feminicídio, como questão estrutural e traçaram propostas concretas para transformar cidades e condomínios em espaços mais seguros para as mulheres, que fugiu completamente ao formato convencional dos eventos do setor imobiliário.
Organizado pela diretora de Urbanismo do Secovi-SP, Roberta Simeoni, o evento contou com o apoio do presidente executivo da entidade, Ely Wertheim, e do vice-presidente de Assuntos Legislativos e Urbanismo Metropolitano, Ricardo Yazbek. Ao longo de quase quatro horas, sete palestrantes e dois painéis de debates produziram um diagnóstico sem precedentes na história do Secovi-SP: a de que o setor que constrói 139 mil unidades habitacionais por ano — segundo o próprio anuário da entidade — tem responsabilidade na construção de cidades mais seguras para metade da população.
Quem abriu os trabalhos foi Roberta Simeoni, que não poupou palavras para justificar a urgência do encontro. Com a voz firme e o peso dos números, ela foi direta ao ponto : “É com uma grande honra e bastante senso de responsabilidade que nós damos início aqui ao nosso encontro de hoje. Nós estamos aqui hoje falando sobre essa pauta porque no Brasil, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, em 2025, nós tivemos 1.470 casos de feminicídio no Brasil. Isso significa que uma mulher é morta, vítima do feminicídio, a cada seis horas.” Ela não parou por aí e traçou o panorama que tornaria o evento necessário: o fato de que entre 64% e 66% dos feminicídios ocorrem no ambiente doméstico, justamente onde as mulheres deveriam se sentir mais protegidas. E provocou a plateia com perguntas incômodas : “Os casos de feminicídio, eles estão realmente aumentando ou a gente tá falando mais sobre isso, ou as duas coisas? Onde é que a gente tá formando esses discursos misóginos? Até que ponto o crescimento de subculturas digitais, os redpills, que normalizam o ódio contra a mulher, vem influenciando e agravando essa violência? Que homens nós estamos formando?”, provocou.
A diretora fez questão de sublinhar um ponto que permaneceria por toda a manhã: o tema da violência contra a mulher não é um assunto exclusivamente feminino. “Nós percebemos muitas vezes uma presença ainda tímida de homens nesse debate. E a gente precisa reforçar, sempre que possível, que esse não é um tema para mulheres, esse é um tema sobre mulheres. E esse é um tema para a sociedade, porque os homens são formadores de homens também. Eles criam cultura familiar, são pais, são filhos, e constroem essas relações, influenciam esses valores e participam da formação dessa cultura”, afirmou. Ao contextualizar o papel do Secovi-SP, Roberta foi enfática sobre a responsabilidade do setor : “Segundo o nosso anuário de 2025, nós produzimos 139.000 unidades habitacionais no ano passado. Esse número mostra o impacto da nossa atuação na cidade. E é por isso que ele traz uma responsabilidade para nós. Se a gente ajuda a construir a cidade, devemos ajudar a construir cidades mais seguras, mais acolhedoras e mais justas.” “A gente não gostaría que esses números fossem apenas estatísticas. Enquanto a gente está aqui hoje reunido, provavelmente uma mulher já foi vítima do feminicídio. E até que a gente volte para as nossas casas hoje, ainda outras mulheres serão. E isso nos interpela como sociedade, como profissionais e como cidadãos”, sentenciou.
O presidente executivo do Secovi-SP, Ely Wertheim, descreveu a própria jornada de aprendizado sobre o tema. Assumindo a “ignorância” inicial com humildade, Ely trouxe um dos momentos mais impactantes da abertura : “Tô eu aqui, um homem, pra falar de um assunto tão importante e tão atual. Começando um pouquinho pelo que o Secovi-SP decidiu: a Roberta, com a Jéssica, a Luciana, outras mulheres e várias outras empreendedoras do Secovi-SP decidiram que a gente não ficaria só fazendo um programa ou uma iniciativa que não tivesse um resultado. E elas vieram falar com a gente, e eu confessei minha absoluta ignorância. Falei: eu não faço a menor ideia de como tratar esse tema”, disse. Com a franqueza que marcou toda a sua fala, Ely relatou o aprendizado concreto que passou a aplicar no cotidiano profissional : “Como é que numa reunião a gente dá voz à mulher? Porque o homem, e eu tô falando por mim na primeira pessoa, pela formação que a gente tem, eu acho que é todo mundo igual. E que a mulher também deveria se impor, dar cotovelada e pedir a palavra. Eu não entendia esta dificuldade desse movimento da mulher. E eu aprendi com elas que essa dificuldade existe, e que se nós homens não, nesse primeiro momento, puxarmos a palavra, não dermos a palavra…”, refletiu.
O presidente fez um compromisso público com a causa e deixou claro que a iniciativa veio para ficar dentro da entidade : “Eu hoje acho que eu sou um homem menos ruim. O que eu tô aprendendo com essas mulheres competentíssimas que têm aqui no Secovi-SP é uma coisa impressionante. É um movimento no que não tem fim. Ele veio pra ficar. O que nós queremos é no final do dia ter a competência de seres humanos comandando, seja homem ou mulher. Só que a mulher precisa de um espaço inicial, ter um pontapé inicial. Isso depende muito dos homens — foi aí que eu entendi onde é que eu entro nessa história”, afirmou.
A primeira palestrante a subir ao palco foi Ivalda Aleixo, delegada de Polícia e diretora do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil do Estado de São Paulo, na qual que comanda desde janeiro de 2023 o departamento que investiga todos os homicídios ocorridos na capital paulista. Ingressou na Polícia Civil em 1994 e possui vasta experiência em investigações criminais de alta complexidade, incluindo passagem pela Divisão de Capturas do Departamento de Operações Policiais Especiais (DOPE) entre 2018 e 2022. A delegada trouxe a realidade crua do que os casos revelam. Logo de início, ela reforçou o alerta de Roberta Simeoni sobre a importância da presença masculina no debate : “Muitas mulheres estão presentes nesses eventos. E nós precisamos de homens presentes também. Os agressores estão entre nós. Porque não é a agressão física, não é, ninguém tá falando que espancou. É aquela microagressão diária, todo dia. Alguns nem percebem que estão fazendo isso. O meu ambiente de trabalho, que é extremamente machista, é horrível. Eu fico em uma mesa com 25 homens, e é impressionante como eles tentam, todos os dias, falar como se eu não soubesse de determinadas questões — e é mentira”, lamentou.
Sobre o aumento dos feminicídios, Ivalda foi taxativa : ” Aumentou, tá? Eu venho nisso há 30 anos. Me despertou com a Lei Maria da Penha lá em 2006. E nós tivemos vários casos que não foram tratados como feminicídio, com ódio à mulher, que passaram pela imprensa de grande repercussão nacional, e eram, sim, feminicídios. Mas não são contabilizados assim.” A delegada trouxe casos recentes que evidenciaram o olhar diferenciado que a investigação precisa ter quando a vítima é uma mulher. Na semana anterior ao evento, duas mulheres desaparecidas foram encontradas — uma com vida, outra sem. Sobre a segunda, Ivalda relatou : “Como foi tratado esse encontro de uma pessoa morta? Gente, não é um encontro de cadáver, é uma mulher morta. Pode olhar o contexto. E o contexto, infelizmente, poderia vir de um abuso sexual, de uma violência sexual, e em seguida ela foi morta e deixada no Parque Ecológico Tietê. Então por isso que a gente tem que colocar o óculos do gênero quando a gente vai para esses locais. Uma mulher morta é diferente de um homem morto”, afirmou.
Ela denunciou ainda o viés de gênero da própria cobertura jornalística dos casos: “Quando nós encontramos uma mulher morta, uma das primeiras perguntas que me fazem é: ‘tinha filhos?’ Mas não perguntam quando é um homem. E a primeira coisa que perguntam: ‘a senhora sabe onde ela foi às 5 horas da manhã?’ Mas importa? Porque eu encontro homens mortos todos os dias, e ninguém me pergunta onde ele tava às 5 da manhã. Então vocês viram como é o julgamento?” A delegada descreveu o ciclo silencioso que leva ao feminicídio e o papel que o medo tem nesse processo : “Nós já chegamos a atender vítima de tentativa de feminicídio falar que caiu em cima de uma faca. E como que eu faço? É medo, se chama medo. Porque ‘eu vou falar, tudo bem, ele vai preso, vai sair e vai me matar’. Porque isso já aconteceu. Ela não foi avisada que ele ia sair da cadeia, a família não foi avisada. E ele saiu, foi até a casa e matou. E aí eu vou ter que carregar isso para sempre.” Ivalda também trouxe um relato que resumiu o padrão psicológico dos agressores : “A gente tem que compreender a motivação. Os padrões revelam o que parece coincidência. Começa com a sensação de posse, poder sobre a mulher, a rejeição. O homem parece que não aceita um não. É muito mimado. ‘Eu fiz da minha sala, foi 15 minutos, fiz o BO online, pedi, 4 horas da tarde ela tava com a protetiva’, mas ele ameaçava porque ela tinha casado de novo. É uma posse, né? É meu — como quem guarda um carro polindo lá, ninguém pode mexer.”
Sobre o ciclo de impunidade, a delegada não economizou: “Silenciamento, omissão, impunidade — porque ele vai fazendo, a mulher não fala por medo, e vai continuando, e vai aumentando, até porque a sensação do prazer… Um tapinha, bom. Dois, três, e aí começa. E onde nós acabamos vendo esse número alarmante de feminicídio e tentativa? O final de semana nós tivemos três. Tô falando de São Paulo. E uma tentativa. Um absurdo isso. Eu fico indignada todo dia: ‘Mas de novo?’ E a pena, que é de 20 a 40 anos, não está assustando ninguém. Zero.” Ela descreveu ainda o trabalho pioneiro do DHPP com um núcleo de análise criminal e comportamental, com psicólogos investigadores que foram treinados pelo FBI, e a delegacia especializada no atendimento de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual : “Eu tenho aqui um investigador. É missão de vida dele. Ele fez psicologia, é investigador, trabalha na delegacia de crimes de violência sexual e abuso sexual de crianças e adolescentes. Ele foi ao FBI agora, o FBI deu curso para os três deles: uma delegada, uma perita e esse investigador. A gente vai para a cena, a gente lê a cena, e a gente tá tentando se antecipar. É essa a nossa missão”, disse.
Cláudio Bernardes, vice-presidente do Secovi-SP, trouxe à discussão o ângulo que mais diretamente interessa ao setor imobiliário: como o desenho das cidades cria — ou destrói — a segurança das mulheres. Ele apresentou dados contundentes para embasar o debate : “A última pesquisa do Datafolha aponta que 21 milhões de mulheres já sofreram algum tipo de assédio ou violência no Brasil. Desse total, cerca de 35% a 40% dos casos acontecem no espaço público. A segurança é um problema estrutural gravíssimo e o medo limita a locomoção de vocês pela cidade. Em 40 anos lidando com planejamento urbano, infelizmente, nunca vi um plano diretor que contemple efetivamente a perspectiva de gênero.” Ele descreveu como o medo afeta diretamente os comportamentos e custos do dia a dia feminino : “O medo faz com que muitas mulheres alterem suas rotinas e trajetos ou gastem mais com táxis e aplicativos porque os ambientes urbanos são hostis. Falta iluminação, o transporte não é sensível ao gênero e a anatomia dos espaços afasta quem transita a pé. Os urbanistas continuam pensando na cidade sem vestir o ‘chapéu’ da mulher para entender seus riscos específicos. Esse paradigma tem que mudar”, afirmou.
Bernardes apresentou conceitos aplicados em cidades do mundo que já avançaram nessa agenda — como o programa “Entre Duas Paradas”, em Montreal, que permite o desembarque de ônibus em locais mais seguros no período noturno, e a exigência de relatórios de impacto de gênero em projetos urbanos na Espanha. Ele também citou os princípios da urbanista e ativista Jane Jacobs como referência central : “Para trazer mais segurança às vias públicas, precisamos apostar no adensamento equilibrado, na compacidade e no conceito de vigilância natural — os chamados ‘olhos na rua’ propagados por autoras como Jane Jacobs. Isso se faz com fachadas ativas, uso simultâneo por diversas faixas etárias, iluminação adequada e calçadas amplas.” “Nada disso funcionará sem que as mulheres participem ativamente da construção desse planejamento urbano, mapeando o medo que só elas sabem onde está, para que, finalmente, possamos criar ruas vibrantes e espaços que acolham e protejam toda a sociedade.”
Adriana Araújo, âncora do Jornal da Band, correspondente internacional e autora do livro “Sou a Mãe Dela” Com 30 anos de experiência em televisão e uma trajetória que inclui grandes coberturas nacionais e internacionais como correspondente em Nova York e Londres, Adriana chegou sem discurso pronto — chegou com números que chacoalham. Ela começou decompondo matematicamente a estatística mais repetida sobre o feminicídio no Brasil : “Em 2020, nós tivemos 1.347 feminicídios registrados oficialmente. Quando você pega 1.347, divide por 365, divide pelas 24 horas do dia, dá 0,92 a cada 6 horas. Arredonda: é um feminicídio a cada 6 horas em 2020. Agora em 2025, o número foi revisado — o número fechado é 1.568 feminicídios. Você divide por 365, divide por 24 horas, e você vê que dá 1,02 a cada 6 horas. Um feminicídio, uma mulher é morta a cada 6 horas no Brasil. Matematicamente, esse número que a gente repete se mantém. Mesmo com esse crescimento dos últimos anos, na hora da divisão, se mantém”, disse.
Mas Adriana foi além da estatística oficial e revelou o que os dados não mostram : “Esse número não é verdadeiro. Esse número é muito pior. Eu vou citar um estudo da Universidade Estadual de Londrina, que tem um laboratório de estudo de feminicídios. Eles acompanham todas as fontes de noticiário do Brasil inteiro, e vão checando as notícias que chegam, mas que não entram no registro oficial. E no ano de 2025, eles contabilizaram 624 mulheres mortas, 624 casos de feminicídio que não entraram na estatística oficial. Se você pegar, somar os 624 à estatística oficial, dividir pelos 365 dias do ano, pelas 24 horas do dia, a gente descobre que uma mulher morre a cada 4 horas. Que a barbárie, que o escândalo, que o vexame, que o que deveria ser uma vergonha nacional, é muito pior do que as manchetes mostram”, lamentou. A jornalista descreveu o fenômeno do anestesiamento coletivo com clareza e urgência : “O que que dá para fazer? Se esse feminicídio tá longe de mim, não é na minha casa, não é na minha família… você se indigna assim: ‘Ah, que triste isso, né?’. Mas é uma informação que anestesiou a todos nós. Então, esses comentários e todo o meu trabalho à frente do Jornal da Band têm um único objetivo: tentar, de alguma forma, chacoalhar as pessoas. Escuta! Uma mulher morrer a cada 4 horas no nosso país deveria ser assunto todo dia, nas prefeituras, nas câmaras municipais, no Congresso Nacional, nos governos de estado, na Presidência da República!”, enfatizou.
A jornalista descreveu a violência que enfrenta diariamente nas redes ao cobrir o tema, e a resposta que deu ao vivo: “A cada vez que eu noticio um caso de feminicídio, de estupro, e que eu comento, vai entrar no WhatsApp da rádio homens dizendo: ‘Ah, mas você só fica indignada quando é mulher que morre, né?’ Teve um dia na rádio que um ouvinte foi tão violento, e eu terminei — tinha um minuto de programa no ar pra fechar — e eu falei: ‘Gente, olha, chegou essa mensagem aqui desse ouvinte. Deixa eu dizer uma coisa pra vocês: pode mandar! Onde é que as mulheres estão estuprando os homens? Mandem todos os casos. Onde é que as mulheres estão socando a cara de um homem 61 vezes dentro de um elevador? Cadê a imagem? Onde é que tem uma mulher atropelando um homem, arrastando esse homem até ele ficar mutilado e depois morrer? Mandem pra gente as imagens! Estamos aqui para noticiar!'”
A âncora foi igualmente contundente em sua análise do sistema de Justiça, que considerou o principal fator de perpetuação da violência : “Nos últimos seis anos, a lentidão judicial resultou no arquivamento de impressionantes 307 mil processos de violência contra a mulher no país. Isso significa 307 mil homens acusados de espancar, enforcar, estuprar e matar saindo com a ‘ficha limpa’, livres para atacar de novo. Trata-se de um escândalo e de um deboche sem precedentes. Nós temos leis eficientes, o que nos falta é efetivamente a Justiça.” “Eu acho que a Justiça não pode se anestesiar. O cidadão comum, se ele fica num estado de latência, anestesiado diante do horror — é ruim, é péssimo. Mas a gente pode compreender, cada um tocando sua vida, tentando dar conta de tudo. Agora, a Justiça… o sentido de existir justiça é você não se anestesiar diante do crime.”
Para encerrar sua palestra, Adriana defendeu a equiparação salarial como uma das ferramentas de prevenção do feminicídio. “Uma maneira de começar a combater os feminicídios, evitando as agressões e as violências, é a gente discutindo seriamente a equiparação salarial entre homens e mulheres. Porque muitas vezes o ciclo da violência começa porque o homem, historicamente no nosso país, ganha mais do que as mulheres. A dominação pela dependência financeira é, muitas vezes, o começo de uma história de violência. A gente precisa tornar cada mulher do nosso entorno, do nosso ambiente, bem informada, conhecedora dos direitos que tem, e uma mulher autônoma financeiramente. Emocionalmente e financeiramente.” Após a palestra, Adriana autografou e sorteou entre os presentes exemplares de seu livro “Sou a Mãe Dela” — obra em que narra sua jornada ao lado da filha, médica formada pela Escola Paulista de Medicina que nasceu com uma síndrome ortopédica e passou por dez cirurgias para caminhar com autonomia.
Luciana Temer trouxe ao evento a perspectiva que mais incomodou — e ao mesmo tempo mais surpreendeu — a plateia: a de que as maiores vítimas de estupro no Brasil não são mulheres adultas, mas crianças. Advogada, professora da PUC-SP desde 1993, ex-delegada de polícia e ex-secretária municipal e estadual em São Paulo, ela dirige o Instituto Liberta, voltado ao combate à violência sexual infantil, e atua como conselheira na Fundação Padre Anchieta, na FIESP e no programa de lideranças da Columbia University. Ela abriu com uma provocação que reorientou todo o debate : “A gente fala muito de mulheres, e é fundamental que a gente fale de mulheres. Mas as maiores vítimas de estupro no Brasil não são mulheres. São meninas. E eu tenho batido toda hora, em todo lugar: menina não é mulher. E acho que boa parte dos problemas que nós temos neste país é pelo fato de não fazermos a distinção correta entre meninas e mulheres”, provocou.

Os números que Luciana apresentou chocam: “Nós temos mais de 30 bebês que nascem por dia, filhas de mães de até 14 anos de idade. Em 2023 eram 38 bebês por dia, filhas de mães de até 14 anos de idade. Recorte: 14 anos de idade é estupro, pela nossa lei. Existe uma coisa chamada estupro de vulnerável. Portanto, vamos entender que todo bebê que nasce de mãe de até 14 anos é filho de estupro. Como a Adriana trouxe muito bem, infelizmente a nossa Justiça não reconhece como estupro, mas como casamento.” Ela apresentou os dados do estupro de vulnerável no Brasil com precisão : “Nós temos seis registros de estupro por hora de menores de 14 anos no país. Por hora. Se você puxar a régua até 17 anos de idade, você vai ter 78% de todos os estupros registrados no país. Então, vamos entender que quem é estuprado no país não é mulher — é criança e adolescente. Em 63% dos casos, o crime foi praticado por familiar. 29% por pessoas próximas. Ou seja, mais de 80% foram familiares ou pessoas muito próximas da vítima. E em 69% dos casos, o estupro aconteceu dentro da casa da vítima.” Luciana explicou a importância de distinguir esses dados para a construção de políticas públicas efetivas : “O estupro de mulheres adultas acontece entre as 18h e as 6h da manhã. O estupro de meninas é entre as 6h da manhã e as 18h da tarde. E é dentro de casa. Se a gente começa a falar só de iluminação na cidade e parar o ônibus à noite no lugar mais seguro — que é super importante, defendo ferozmente — a gente constrói sistemas de proteção só para este lado e vai esquecer deste outro lado: que são essas meninas e meninos dentro de casa”, lamentou.
Ela narrou como o Instituto Liberta foi fundado: a partir de um convite do empresário Elie Horn, que financiava integralmente a iniciativa — e como os dados sobre violência sexual infantil não existiam quando o instituto foi criado, em 2017: “Quando o Elie me chamou, ele queria montar alguma coisa para enfrentar o que ele chamava de ‘meninas escravas sexuais’. Eu falei para ele: ‘Doutor Elie, essa violência é muito ruim mesmo, mas isso é uma questão pontual, um caso de polícia. Por que o senhor não escolhe colocar o seu dinheiro e energia em algo que é um problema mais estrutural da sociedade?’ E ele falou: ‘Eu acho que Deus me deu essa missão, há 10 anos, e eu tenho que cumprir. E ninguém fala desse assunto.’ Eu falei: ‘Tá bom, eu vou ajudar o senhor a montar esse instituto.’ Não era o meu tema.” Sobre a influência das plataformas digitais no crescimento da violência, Luciana foi direta : “De 2020 para 2021, o número de processos contra adolescentes por ato infracional análogo ao estupro de vulnerável dobrou — passou de cerca de 1.900 para mais de 4.000. O que aconteceu em 2020? O lockdown. Crianças e adolescentes nas telas. Um estudo da Europol mostrou que o crime organizado migrou para a produção e distribuição de material pornográfico infantil. O consumo desse material na Espanha subiu 35% no lockdown. A internet hoje serve para monetizar a sua atenção, e o que mais prende a atenção das pessoas são questões radicalizadas, sexualizadas e violentas.” Luciana concluiu sua fala reafirmando a educação como única saída estrutural : “A gente pode aumentar pena, a gente pode construir mais prisão, a gente pode fazer cidades mais iluminadas, mais seguras, mas se os conceitos de respeito e de igualdade não forem incorporados nas pessoas, nós continuaremos com os índices de violência que nós temos hoje. Essa é a convicção que eu tenho”, afirmou.
O primeiro painel reuniu todas as palestrantes do bloco inicial — Ivalda Aleixo, Adriana Araújo, Luciana Temer e Cláudio Bernardes —, mediado por Roberta Simeoni. Adriana fez uma análise sobre a polarização política que bloqueia o debate: “A gente foi sequestrado por essa polarização política em que a gente acha que se a gente tá de um lado, já tá definido o que a gente tem que pensar. A lei da misoginia é boa pra um lado e é ruim pro outro. Enquanto a gente deveria estar de um lado só. Falar: ‘Escuta, os nossos filhos adolescentes estão sendo vítimas de pessoas que estão ganhando muito dinheiro pra divulgar conteúdo de pornografia, pra divulgar que mulher é inferior, que eles têm que dominar, que eles têm que bater, que eles têm que estuprar.’ Por mais que pais e mães conscientes tentem educar os seus filhos dentro de casa, os nossos filhos adolescentes estão expostos a essa rede. Vida não tem lado, gente! Vida não tem esquerda ou direita. É vida, é ser humano.” Luciana Temer, de forma complementar, descreveu o mecanismo do algoritmo e seu papel na radicalização : “As pessoas não refletem mais. A história dos algoritmos é muito séria. Você só vê o que te interessa. Então você fica reforçando aquilo que você acredita. E não abre espaço para refletir. Você entra no cinema, as pessoas pegam o celular no meio do filme! O nível de vício que as pessoas estão nas redes e no celular é muito alto. Enquanto a gente não começar a entender que existe esse mecanismo, qualquer construção mais consciente vai ser atrapalhada.”
Ely Wertheim retornou ao microfone no painel e fez uma síntese: “Ouvindo vocês, e falando um pouco como homem: diferente dos homens, vocês têm propósito, conhecimento, emoção e praticidade. Coisas que a gente não vê no dia a dia masculino. Me veio à cabeça que o Brasil tem vários ‘cânceres’, mas tem três que, se a gente resolver através dos problemas das mulheres, a gente resolve. O primeiro deles é a segurança pública: na hora que resolver e encaminhar a segurança das mulheres, encaminhamos a de todos. Tem rua que homem também não entra. O segundo é a corrupção. E o terceiro é a desigualdade social. Só vocês, e a partir dos problemas de vocês, a gente tem condições de resolver essas três mazelas”, afirmou.
Antes de iniciar o segundo bloco, Roberta Simeoni apresentou o CIAP São Patrício, a organização da sociedade civil sem fins lucrativos, parceira da Prefeitura de São Paulo, que desenvolve 28 serviços voltados a famílias e mulheres em situação de vulnerabilidade, sendo seis desses serviços dedicados especificamente a mulheres em situação de violência doméstica. Roberta revelou que os endereços dessas casas de acolhimento não podem ser divulgados publicamente — pois isso colocaria em risco a integridade das gestoras. Ela também apresentou a Casa Eliane de Grammont: o primeiro equipamento público de enfrentamento à violência doméstica no Brasil, inaugurado em 9 de março de 1990 e batizado em homenagem à cantora assassinada em 1981 pelo cantor Lindomar Castilho, que não aceitou o fim do relacionamento : “A casa tem uma equipe multidisciplinar, com psicólogas, assistentes sociais, advogadas e apoio da Defensoria Pública duas vezes por semana. A casa tem rota de fuga. O objetivo central é o fortalecimento da mulher para a ruptura do ciclo da violência. Eles possuem um kit manicure — eles habilitam, treinam essa mulher, capacitam-na para que ela possa começar uma carreira, e a gente pode ajudar doando um kit manicure para que ela possa começar a carreira dela”, afirmou.
A quinta palestrante foi Julia Maia Jereissati, secretária-adjunta da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL) de São Paulo. Ela apresentou um panorama histórico do urbanismo com perspectiva de gênero e as iniciativas já em andamento na cidade de São Paulo, traçando a linha histórica que explica por que as cidades foram construídas sem pensar nas mulheres : “Com a revolução industrial, teve uma separação rígida entre casa e trabalho. As mulheres continuaram em casa, e os homens foram para as ruas trabalhar. Então a cidade começou a ser pensada a partir da experiência do homem. Como era o homem que ia pra rua pra trabalhar, esse trajeto era feito por ele. E as mulheres em casa. Na década de 60, chega Jane Jacobs, que não é uma arquiteta, mas era uma pensadora, feminista, jornalista, ativista. Ela fala que a cidade não é um ambiente neutro. Não pode ser pensada com a cabeça de homem. Tem que ser pensada pela experiência da mulher. Quando a cidade tá segura pra mulher, ela tá segura pra todo mundo”, afirmou.
Julia apresentou as ações já em andamento na cidade de São Paulo, incluindo o sistema de desembarque seguro nos ônibus noturnos : “53% das usuárias do transporte ônibus são mulheres. Aqui em São Paulo, entre as 22h e as 5h da manhã, tem o desembarque seguro. A mulher avisa ao motorista, e ela pode descer no trecho que o ônibus vai fazer, na linha, a qualquer momento. Ela só precisa avisar e ela desce antes. Tem postos de apoio e acolhimento nos terminais. E tem o treinamento dos motoristas para lidar com situações de assédio dentro dos ônibus.” Ela apresentou também os dados do programa Smart Sampa e do aplicativo Mulher Segura : “O Smart Sampa são 50.000 câmeras de monitoramento espalhadas pela cidade de São Paulo. Os resultados são 5.000 prisões em flagrante, dessas quase 500 foram homens que violentaram as mulheres. Já são 61.000 mulheres cadastradas e já tem mais de 1.600 acionamentos realizados”, disse.
Monica Miki, coordenadora de Planejamento da Segurança do Metrô de São Paulo foi a próxima a falar no evento. Com 24 anos de atuação no Metrô de São Paulo e responsável pela área de treinamento e gestão de dados do departamento de segurança, Monica apresentou os protocolos, dados e campanhas que o sistema metroviário desenvolveu para proteger suas passageiras. Ela começou esclarecendo uma questão jurídica importante : “Os agentes de segurança do metrô possuem poder de polícia dentro da sua área, por conta da lei federal. Então eles podem efetuar detenção e encaminhar para o distrito policial em caso de crime ocorrido dentro da sua área.” Ela detalhou os números de 2025 no sistema : “Em 2025 nós tivemos 80 casos de importunação registrados. Todo dia nós transportamos mais de 3 milhões de pessoas e é como se a gente quase tivesse transportando o Uruguai inteiro em um dia. Mesmo assim, temos uma quantidade muito pequena de pessoas que informam que foram vítimas de importunação. Desses 80, 50 nós logramos êxito na detenção. Esse ano de 2026, foram 37 até abril, com 70% de efetividade”, disse.
Ela descreveu a campanha do Sinal Vermelho e outros mecanismos de denúncia : “Temos o SMS Segurança, que começou por volta de 2014. Quando a gente recebe qualquer denúncia que fale sobre abuso, assédio, importunação, ele vai sinalizar em vermelho, para que o operador dê prioridade nesse atendimento. E em 2017 começamos com o aplicativo Metrô Conecta. Lá, além da denúncia, é possível encaminhar fotos do autor.” Monica também denunciou o problema da subnotificação e o papel da educação: “Muitas vezes a gente atende mulheres que sofreram a importunação, foram para o trabalho ou para casa, e conversando lá é que alguém fala: ‘não, mas isso que aconteceu com você não está correto.’ E aí elas retornam para falar o que aconteceu. A gente tem dois vieses: um é o da repressão, a gente tem que parar esses agressores. Mas também entendo que a gente precisa focar muito na educação. Se a gente não educar tanto os homens para que eles saibam que aquele comportamento não é o correto, mas também educar as nossas meninas. A gente tem que educar as mulheres para que elas saibam que elas são capazes, que elas têm que buscar uma independência financeira para que elas possam, né, dar uma de Shakira e falar que ‘as mulheres não choram, as mulheres faturam’. A gente tem que educar as nossas meninas”, afirmou.
Angélica Delgado Arbex, diretora de Marketing e Estratégia na Lello Condomínios e fundadora do LelloLab, fechou o ciclo de palestras trazendo o debate para a escala dos condomínios — e, com ela, uma proposta concreta para o setor imobiliário. Ela abriu conectando segurança da mulher à economia : “Tem um dado de um estudo recente do Banco Mundial: se você tem um homem e uma mulher que fizeram o ensino médio juntos e que têm a mesma capacidade cognitiva, intelectual e financeira, mas na hora de escolher a universidade, a mulher muitas vezes escolhe uma universidade pior porque é num lugar mais seguro — o estudo do Banco Mundial trouxe que a perda de média de PIB global com as escolhas das mulheres que privilegiam a segurança é de cerca de 20%. Ou seja, se as mulheres pudessem ter o preparo igual aos homens sem essa preocupação, a gente poderia produzir no mundo 20% mais riqueza. Quando você constrói um bairro mais seguro pra uma mulher, você constrói um bairro mais seguro pra todos. E esses ambientes produzem imóveis mais valorizados, vendidos por tickets maiores. A segurança e bem-estar da mulher é uma mola propulsora da economia.”
A diretora apresentou o Protocolo Maria, criado pelo LelloLab em 2022 em parceria com ONGs e a polícia : “A Lello tem 70 anos e administra 4.500 condomínios aqui em São Paulo. Em 2022, o LelloLab reuniu ONGs, a polícia, o Benefício Legal, o Instituto Gema e criou o Protocolo Maria. O que esse protocolo fez? Trouxe o que porteiros, zeladores, vigias e condôminos podem fazer quando presenciam uma questão de violência. Uma coisa é você cumprir uma ordem restritiva num condomínio de classe média baixa. Outra coisa é um porteiro cumprir uma ordem restritiva na Vila Nova Conceição, num apartamento de 10 milhões de reais. Como é que o porteiro, o zelador, o vigia — que em tese tem uma condição econômica muito menor do que aquele agressor — como é que ele se coloca?” Angélica descreveu a implementação prática do protocolo: “A gente colocou nos condomínios da Lello cartazes em toda área comum dizendo: ‘vamos tornar o condomínio mais seguro, chega de violência, saiba o que fazer, 180, 190.’ Fazemos constantemente rodas de conversa com os porteiros, trazemos homens para falar sobre esse assunto com eles, preparamos homens para falar. O protocolo é legal, mas o protocolo vivo é muito mais legal. Uma plaquinha no elevador falando ‘aconteceu alguma coisa, ligue 180’ pode salvar uma vida”, disse.
Angélica encerrou com uma série de propostas concretas para o setor imobiliário: “Para os condomínios que já existem: levar o assunto para a pauta, educar e empoderar a força de mão de obra que está lá. Para o mercado: toda vez que a gente estiver projetando um novo empreendimento, vale perguntar ‘uma mulher se sentiria bem à noite, segura aqui nesse espaço que eu tô projetando?’ A gente já pergunta tanta coisa, faz estudos de vocação de terreno, estudo de viabilidade técnica. Uma mulher se sentiria segura aqui à noite sozinha? Se a resposta for não, volta o projeto pra prancheta. Coloca uma luz a mais no corredor, mexe na guarita, mexe no ponto cego, vê como é o caminho do estacionamento. É simples fazer isso.” “E para o setor como um todo: podemos tentar trazer perspectiva de gênero para o plano diretor. Não existe uma única resposta para tornar a casa da pessoa um lugar seguro para a mulher. Isso não é um problema só do mercado imobiliário. Mas se todo mundo junto começar a se articular diferente, a gente consegue construir uma cidade mais humana, mais feliz para viver”, afirmou.
O segundo painel, também mediado por Roberta Simeoni, reuniu Julia Maia Jereissati, Cláudio Bernardes, Angélica Delgado Arbex e Monica Miki. O debate gerou propostas concretas que podem moldar a agenda do setor e da política urbana de São Paulo nos próximos anos. Cláudio Bernardes fez a pergunta que abriu o diálogo mais estratégico da manhã : “Como você vê essa possibilidade de efetivamente incluir a perspectiva de gênero dentro do plano diretor?” A resposta de Julia Maia Jereissati foi um convite à ação imediata : “O novo plano diretor tá chegando em 2029. Se a gente piscar o olho, a gente perde a oportunidade de colocar isso dentro da lei. Então acho que vocês já podem começar a propor aqui para a prefeitura. Acho que a prefeitura já tem tecnologia suficiente para conseguir mapear esses pontos de vulnerabilidade e inserir aí nesses estudos do novo plano diretor.”
Roberta Simeoni trouxe uma proposta inovadora para conectar empreendimentos imobiliários e segurança : “Os empreendimentos geradores de impacto de vizinhança, ou polos geradores de tráfego — por que a gente não discute medidas mitigadoras que envolvam a segurança da mulher? Um empreendimento gerador de impacto de vizinhança, ao invés de você me solicitar apenas uma sinalização para deficiente visual, por que que você não propõe para essa empresa que ela reveja uma caminhabilidade até os pontos de ônibus mais próximos desse empreendimento? Com isso a gente vai construindo microrregiões que vão se conectar de uma maneira melhor. Ao invés de você adotar uma praça, você pode ter um outro projeto junto à subprefeitura como uma contrapartida.” Monica Miki completou a articulação entre o transporte e os condomínios : “No metrô a gente tem seguranças, temos mais de 5.000 câmeras monitorando as estações. Mas a partir do momento que a pessoa sai do metrô, até ela chegar na residência — esse meio do caminho é um trajeto que a gente poderia conectar. O privado também tem que se mobilizar para poder dar essa segurança para a população.”
Angélica Arbex fez a síntese que encerrou o debate com uma visão de esperança : “Todas as vezes que eu ouço os meus amigos dizendo ‘ah, eu vou me mudar de São Paulo, eu vou me mudar do Brasil, porque aqui a gente não tem segurança’, pra mim é meio que uma facada. Eu tenho certeza que a gente, com uma atitude disciplinada, positiva, consegue tornar a nossa cidade uma cidade melhor pra estar e pra viver. São muitas conexões que precisam acontecer para que as coisas mudem a vida da pessoa na ponta. Não vai ser uma iniciativa isolada que vai resolver nem racismo, nem feminicídio, nem misoginia. E não é rápido. Mas é um processo que começa com mesas como essa que você montou hoje.”
Roberta encerrou o evento com uma última provocação ao setor : “Quase todos nós citamos a Jane Jacobs, que criou esse movimento de que a cidade tem que ser pensada pelo olhar da mulher — há 70 anos atrás. Ainda estamos patinando. O plano diretor vai ter a mudança em três anos. Se a gente não correr, a gente vai continuar patinando. Então é o meu pedido que a gente não pare por aqui. Que hoje, de fato, seja só o start, junto com o mercado imobiliário, e que a gente trabalhe para que isso entre no novo plano diretor e garanta a segurança para as mulheres na rua, não só dentro das casas”, afirmou.
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