Para encerrar dois dias de palestras, debates e networking ocorridos durante o Enacon (Encontro das Administradoras de Condomínios) nos dias 5 e 6/10, o filósofo Leandro Karnal deu uma aula divertida sobre ética e as raízes do surgimento do “jeitinho brasileiro”.

Primeiro, Karnal definiu crise como a acentuação da doença “pessimismo”. Apesar de, à primeira vista, parecer negativo conviver com pessimistas, o filósofo disse que é bom ter, no ambiente corporativo, pelo menos uma pessoa com essa característica, porque ela dá o tom da realidade. “Mas o pessimista tem um problema estrutural: não colabora, reclama e não faz parte da solução”, completou. Ele destacou outro aspecto positivo da crise: “Ela distingue o amador do profissional. A crise tem a vantagem de nos tirar da zona de conforto”.

Felicidade – Karnal disse que não nos preparamos para a felicidade, atualmente centrada no “ter” bens, o que é um erro. Orgulho e individualismo colaboram com esse comportamento. “Nunca fomos tão cheios de nós mesmos. Quando a vaidade atinge as pequenas autoridades, surgem os pequenos poderes, que são assustadores.” Nessa dinâmica, todos parecem felizes, mas entre o “ter” e o “ser”, está a realidade; e entre o “parecer” e o “ter”, a ética.

O livro “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, foi deixado pelo filósofo a seu filho, que dá nome à obra. Basicamente, ela ensina que a melhor herança para se deixar a um filho é “vergonha na cara”, conforme explicação de Karnal. “Aristóteles insiste no ensino da ética, e a virtude se adquire com o hábito. Ética não é algo natural, ela se ensina.”

Karnal separou a grande ética social da pequena, chamada de etiqueta e que corresponde à percepção do espaço do outro. “Por tradição, o mal está no outro. Mas todos têm uma cota pessoal de participação nos problemas gerais.”

A gentileza está no grupo da etiqueta. “Ela é obrigatória, porque o outro é importante. Mesmo quem não ouve ou não vê, sente a gentileza”, ressaltou Karnal.

Raízes – De acordo com filósofo, o brasileiro ainda carrega a tradição escravista do chicote, onde prevalece a cultura do controle pela punição, ameaça, medo e submissão. Entretanto, não se estabelece, com isso, uma relação ética.

“A falta de ética é contagiosa e se ela atinge o administrador, todo o sistema está corrompido”, disse, completando que, por essa ótica, o “crime compensa”, porém o resultado não é permanente, mas artificial e temporário. Para ele, quem engana, tem cúmplices e não amigos. “Apesar de mais trabalhoso, sempre é mais fácil ser ético, pois não há temor nem tremor”, disse o filósofo.

Karnal explicou que a ética é o caminho para construir uma carreira baseada no trabalho, sistemático, sem imediatismo. Haverá tentação, mas enfrentá-la é um gesto além do instante. “Tudo o que acontece é mistura daquilo que não se controla com decisão pessoal. Coisas referentes ao universo pessoal são controláveis e a vida é uma opção diária. Abrir mão da liberdade diminui o exercício da ética.”

Nosce te ipsum – A máxima grega “conhece-te a ti mesmo” foi citada por Karnal como premissa para o fortalecimento da ética, pois, “quem não sabe o que é, não pode dizer ao outro o que fazer”.

Por fim, o filósofo explicou o nascimento do ‘jeitinho brasileiro’. “No Brasil, não basta cumprir a lei, ela tem de ser interpretada. E só funciona a lei da coerção e do consenso, ou seja, punir para que seja cumprida.”

De acordo com Karnal, o jeitinho nasceu dos vícios que permaneceram da colonização e escravidão. Para entender a afirmação, é preciso lembrar que o Brasil era regido à distância, de Portugal, e não se fiscalizava o cumprimento daquilo que era determinado pela Coroa. E da escravidão, veio a cultura de que o trabalho enriquece o outro. Logo, o trabalho é visto como castigo. Por isso, ainda existe a necessidade de gestão repressiva, controlada. “O jeitinho é interpretar a regra, a lei, não cumpri-la, sem que haja o enfrentamento”, disse Karnal. Basicamente, é descumprir regras com um sorrisinho no rosto.

“A ética está em todos os campos e é um projeto pessoal. É um esforço diário para ser perfectível, melhorar diariamente. Ética é entender que há diferenciações sociais e hierárquicas e, quanto maior a responsabilidade, maior será a ética. Cada um tem de ser parte da solução, ser a transformação que se quer ver no mundo. E ter a certeza de que não existe maneira certa de fazer a coisa errada”, finalizou.

Emocionado, Hubert Gebara, vice-presidente de Administração Imobiliária e Condomínios do Secovi-SP e presidente do comitê organizador do Enacon, lembrou da dificuldade de decidir, em meio à crise, a realização desta edição do evento, antes de agradecer aos colaboradores. “Tenho a sensação de dever cumprido. Fizemos muito mais do que nos preparamos.”