O primeiro dia do Horizons 2026, realizado nesta quarta-feira (6/5), trouxe para o centro do debate a necessidade de uma mudança estrutural no mercado da construção civil. No painel intitulado “O futuro da construção exige uma nova lógica de mercado”, especialistas da indústria, do setor imobiliário e do poder público discutiram como transformar tecnologias já existentes em padrão de mercado, superando entraves de custo, cultura e regulação.

A abertura do debate, conduzida por Patrícia Bittencourt, gerente de Sustentabilidade do Secovi-SP, sublinhou o peso do setor na economia nacional. “O setor da construção envolve um PIB de 7% do Brasil, emprega milhares de pessoas e contribui para a infraestrutura da cidade”, destacou. Paralelamente a essa força produtiva, Patrícia enfatizou a responsabilidade ambiental, observando que “cerca de 37% das emissões no ambiente construído são das edificações, quer seja na fase de construção ou mesmo na fase de uso”. Ao concluir a introdução, ela ressaltou que a discussão não seria sobre o óbvio, mas sobre a pressão por competitividade e os entraves reais: “Queremos falar um pouco das dificuldades e dos desafios para essa mudança em que o nosso setor vem passando”, afirmou, conectando o cenário à necessidade de uma nova lógica de mercado baseada em sustentabilidade e viabilidade econômica.

A indústria argumenta que a tecnologia necessária para a modernização do setor já está disponível em solo nacional. Douglas Meirelles, Gerente de Public Affairs e Soluções Integradas da Saint-Gobain Brasil, destacou que o país não está atrasado em termos de produtos, mas sim na escala de sua aplicação. Meirelles defendeu a transição para sistemas modulares e painelizados que priorizam o desempenho e a vida útil da edificação.

“Hoje os sistemas construtivos já são uma realidade em termos de desenvolvimento fabril com diversas iniciativas em todo o país. Precisamos pensar em sistemas cada vez mais produtivos, ágeis, como sistemas modulares, alguns remetendo inclusive a sistemas parecidos com Lego”, explicou Meirelles. O executivo ressaltou que soluções como drywall e painéis de fachadas prontos já oferecem sustentabilidade financeira e agilidade, mas dependem de parcerias entre os setores público e privado para ganhar capilaridade.

Por outro lado, o setor de incorporação aponta que a industrialização plena ainda enfrenta barreiras culturais e de planejamento. Carlos Borges, vice-presidente de Tecnologia e Sustentabilidade do Secovi-SP, observou que, embora a industrialização seja a norma no mercado de habitação popular devido à necessidade de escala e controle de custos, o mesmo não ocorre nos segmentos de médio e alto padrão.

“A construção industrializada sempre foi um sonho de consumo do setor. Mas, em mercados de médio e alto padrão, ainda temos uma cultura de produtos únicos e valorização do design que dificulta um planejamento que viabilize a industrialização”, afirmou Borges.

O debate também abordou o ambiente regulatório de São Paulo como um indutor de novas práticas. Rodrigo Goulart, secretário de Desenvolvimento Econômico e Trabalho da Prefeitura de SP, destacou as recentes atualizações nas legislações urbanísticas, que devem vigorar até 2029. Entre os mecanismos de incentivo, Goulart citou a regulamentação do Artigo 10 do Plano Diretor, focado no conceito de “edifício conceito”.

“O edifício conceito, conseguindo atingir certificações e metas estabelecidas, chega a ter incentivo de até 8% a 10% do seu potencial construtivo”, revelou. Goulart enfatizou que o objetivo é induzir o uso de inovação e sustentabilidade através de contrapartidas viáveis para o incorporador.

Além da legislação, o secretário apontou a escassez de mão de obra qualificada como um catalisador involuntário para a industrialização. “Hoje as construtoras têm uma necessidade muito grande de preencher vagas. O déficit de pessoas induz ainda mais a industrialização. Muitas construtoras têm escolas dentro dos canteiros porque precisam formar a mão de obra”, afirmou Goulart, mencionando que profissionais como pedreiros podem chegar a ganhar entre 15 e 20 mil reais por produtividade devido à alta demanda.

Um dos pontos mais críticos discutidos foi a resistência do mercado em absorver os custos iniciais da inovação. Carlos Borges destacou que o consumidor final, embora demonstre interesse pela sustentabilidade, raramente está disposto a pagar um prêmio por ela. “Ele gosta da sustentabilidade, mas não paga mais por isso. Não é o incorporador que decide, é a viabilidade que decide”, explicou o vice-presidente do Secovi-SP.

Borges também criticou a fase incipiente dos financiamentos “verdes” no Brasil. “Percebemos nos bancos tradicionais e fundos um desejo genuíno de ter financiamentos com taxas melhores, mas ainda de forma incipiente e com dificuldade de materialização”, afirmou. Para ele, a industrialização também responde a pressões logísticas urbanas, como as restrições de horários para transporte de materiais e as leis de ruído, que tornam a obra tradicional cada vez mais difícil de executar em grandes centros.

Para romper o preconceito contra sistemas industrializados, como o drywall, Douglas Meirelles relatou iniciativas de comunicação voltadas ao grande público. A Saint-Gobain tem investido em formatos de entretenimento para educar consumidores e corretores imobiliários sobre as vantagens de manutenção e flexibilidade desses sistemas.

“Vencer essa barreira e levar informação ao consumidor final vai além da nossa responsabilidade como fabricante. Lançamos reality shows como ‘Pedreiro Top’ e ‘Mestres do Drywall’ para que a informação chegue de maneira mais próxima”, contou Meirelles. Ele ressaltou que a população ainda confunde construção sustentável apenas com o uso de “produtos sustentáveis”, ignorando fatores de saúde, conforto e desempenho térmico ao longo do ciclo de vida do imóvel.

Ao final do painel, os participantes reforçaram que a transformação do setor depende de um alinhamento sistêmico entre todos os elos da cadeia. Patrícia Bittencourt encerrou o debate enfatizando que a agenda da sustentabilidade e da inovação não é paralela, mas central para a competitividade do negócio.

“A tecnologia e a solução nós temos. O que vai precisar é nos adequarmos aos desafios que o setor possui. Não é uma agenda paralela, é uma agenda que vai traduzir em sustentabilidade de negócio”, concluiu Patrícia. O consenso entre os painelistas é de que o arcabouço legal atual e a pressão por produtividade criam, até 2029, uma janela de oportunidade para consolidar a construção industrializada como o novo padrão de mercado em São Paulo.