As melhores cidades não são apenas inteligentes ou verdes, mas também humanas
Os espaços urbanos não são constituídos apenas por infraestrutura física; estão ali incluídas de forma indissociável as paisagens emocionais, formando ambientes onde as pessoas experimentam a vida quotidiana.
O urbanismo afetivo é um conceito que traz a emoção humana, a memória e a conexão social como pontos centrais para o desenho urbano. Desafia a ideia de que as cidades devem ser movidas principalmente pela eficiência da operação e pela economia, ressaltando a importância da forma como as pessoas se sentem.
Na sua essência, o urbanismo afetivo consiste em projetar cidades que alimentem um sentimento de pertencimento, segurança e empatia. Esses espaços não surgem por acaso, são o resultado de escolhas intencionais de desenho da cidade que priorizam a experiência humana.
A proposta vai além da estética ou da eficiência do planejamento urbano. Trata-se de pensar a cidade como um espaço de relações humanas, onde o afeto, o pertencimento e a empatia ocupam lugar central no projeto das áreas públicas. Dessa forma, uma das características mais importantes do urbanismo afetivo é a criação de áreas públicas de qualidade, que promovam a saúde, a felicidade e a conexão entre as pessoas, garantindo que os espaços públicos reflitam a identidade e a cultura locais.
Outro pilar relevante do urbanismo afetivo é o reconhecimento da diversidade. A cidade que acolhe é aquela que respeita as diferenças de idade, gênero, classe social, etnia, cultura e modos de vida. É aquela que oferece mobilidade segura para crianças e idosos, espaços públicos que respeitam e incluem pessoas com deficiência, e onde seja possível possibilitar moradia digna para todos.
Além disso, o urbanismo afetivo está profundamente conectado com a memória coletiva. Cada rua tem um passado, cada praça tem lembranças que não cabem em plantas arquitetônicas, mas moldam o imaginário, o afeto, e ampliam a sensação de pertencimento.
Barcelona introduziu o conceito dos “superblocos”: áreas da cidade onde o tráfego de carros é restringido, dando lugar a calçadas alargadas, áreas verdes, bancos, ciclovias e espaços para encontros e brincadeiras.
Criticamente, o urbanismo afetivo também envolve ouvir vozes marginalizadas. Nem todos vivenciam a cidade da mesma maneira. Para as mulheres, as crianças, os idosos e as minorias, o ambiente urbano pode muitas vezes parecer inseguro ou excludente. O desenho afetivo significa garantir que estes grupos não sejam apenas consultados, mas ativamente envolvidos na formação do espaço público inclusivo.
Em essência, o urbanismo afetivo oferece uma estrutura para a compreensão da cidade como um espaço dinâmico de experiência emocional e sensorial, reconhecendo o papel crucial que os afetos desempenham na formação da vida urbana e das relações sociais.
Numa época em que as cidades enfrentam desafios complexos –de alterações climáticas à desigualdade– o urbanismo afetivo oferece uma visão esperançosa. Lembra-nos que as melhores cidades não são apenas inteligentes ou verdes, mas também humanas. São lugares onde as pessoas podem florescer emocional e economicamente. São cidades que não apenas nos servem, mas também nos abraçam e nos acolhem.
*Texto publicado no Folha Online 28/8 – link