Coluna Secovi

Dilemas urbanos

José Roberto Bernasconi*

Nas cidades brasileiras vivem, hoje, 85% da população, 180 milhões de pessoas. Em 70 anos deixamos de ser uma sociedade rural e agrícola e nos transformamos num país urbano, com grandes cidades e os desafios que lhes são próprios.

É importante ressaltar que a cidade é uma realização humana e reflete o grau de civilização da sociedade que nela vive. E nesse sentido, a realidade de nossas cidades não nos deixa bem na foto.

Desafios imensos na mobilidade humana e na mobilidade de bens e produtos; na segurança pública; na oferta de equipamentos urbanos que facilitam a vida das pessoas, a começar pelo déficit habitacional; na manutenção e conservação da infraestrutura que dá suporte a todas as atividades nas cidades; no saneamento básico, em suas quatro vertentes, a saber, abastecimento de água, afastamento e tratamento de esgotos, drenagem urbana e manejo dos resíduos sólidos.

No capítulo do saneamento, temos em nosso País quase metade da população (100 milhões de pessoas) vivendo em meio ao esgoto, pela ausência da sua coleta e afastamento. E mesmo aqueles que têm seu esgoto coletado, quase a metade do afastado não recebe o tratamento adequado.

No capítulo da infraestrutura, o País, como um todo, teve um estoque de infra no valor de 58,2% do PIB, em 1986. Esse estoque vem se reduzindo sistematicamente, chegando hoje a 35,9% do PIB nacional, como consequência da falta de investimentos contínuos, conforme estudos do economista Cláudio Frischtak, que recomenda que esse índice seja, no mínimo, de 60% do PIB.

Nesses últimos quatro anos de recessão e pasmaceira econômica a capacidade de investimentos sumiu e o Brasil e suas cidades não investiram na ampliação de sua infra e nem na conservação e manutenção da existente.

O resultado fica evidenciado com a queda do viaduto do Eixo Monumental, em Brasília, em fevereiro de 2018 e nos incidentes com viaduto e ponte em São Paulo mais recentemente.

O Brasil precisa reencontrar a rota do crescimento e do desenvolvimento econômico com urgência, sem o que novos acontecimentos desagradáveis sobrevirão.

Com relação ao saneamento, em especial, a sociedade brasileira precisa despertar e pressionar os governantes para a geração de um programa que resgate metade dos brasileiros que vivem nas condições sanitárias do século 19!

Estamos capengando para entrar no século 21 e, na verdade, temos ficado quase parados enquanto o mundo acelera (basta olhar a Coréia do Sul, a China e outros) e ainda temos uma multidão chafurdando no esgoto!

O Brasil foi capaz, depois de várias tentativas frustradas, de superar o monstro da hiperinflação com o Plano Real, na última década do século 20.

Já passou da hora de gerar um ‘Plano Real’ para o saneamento, por meio da mobilização da sociedade brasileira e das chamadas forças vivas nacionais, de modo a coordenar e gerir recursos financeiros, humanos e tecnológicos para, em uma geração, curarmos essa chaga que afeta os mais pobres e nos envergonha como sociedade que se pretende civilizada.

 

*Engenheiro civil e advogado, conselheiro do Sinaenco Nacional e do Instituto de Engenharia, associado ao Secovi-SP

17 de julho de 2019

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